Guerra no Oriente Médio expõe risco energético do Brasil, alerta ex-presidente da Petrobras
Igor Martins 1 abril 2026 16 Comentários

Uma guerra escalada no Irã, combinada com um possível bloqueio no Estreito de Ormuz, trouxe à tona uma vulnerabilidade antiga e perigosa: a insegurança energética do Brasil. É assim que José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras (2005-2012) descreve o cenário atual em entrevista recente. O economista, hoje professor na Federal University of Bahia (UFBA), não veio apenas para alertar sobre preços, mas para expor o esquecimento estratégico que deixou o país dependente.

Enquanto os mercados globais tremem com esse terceiro grande choque do petróleo — após os históricos de 1973 e 1979 —, o brasileiro precisa entender um fato duro: aqui dentro, a malha industrial está comendo pão sem ter farinha própria suficiente.

A crise silenciosa do refino nacional

O problema não começou agora, claro. A raiz histórica vai longe. Entre 1980 e 2014, o Brasil praticamente parou de construir novas refinarias. Foi só em 2014 que inauguraram a refinaria Peruana... perdão, a refinaria Pernambuco. Durante anos, o plano era erguer cinco unidades modernas. No fim das contas, a Petrobras construiu apenas uma.

Gabrielli aponta um dedo para os tumultos políticos recentes. Segundo ele, a Operação Lava Jato acabou por frear projetos cruciais de expansão. "O Brasil, a partir da Operação Lava Jato, inibiu a possibilidade de criação de novas refinarias", disse ele com clareza. Sem capacidade instalada, o país virou refém dos oscilações externas.

Dependência total de diesel

Aqui está o detalhe que dói no bolso de qualquer logista ou dono de caminhão: o diesel. O combustível representa entre 20 e 30% da demanda nacional por derivados de petróleo. E adivinha? Não temos refino para suprir tudo isso.

A situação piorou durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Nesses períodos, as próprias refinarias da estatal foram reduzidas para operar com metade da carga — apenas 50% de capacidade. Enquanto isso, a porteira abriu para o mercado externo.

Foi nessa época que surgiram cerca de 300 novos importadores autorizados a trazer derivados de combustíveis. Ou seja, se algo travar nas rotas de comércio internacional, essa válvula de escape pode entupir rápido demais. "Não temos capacidade de refino para atender o mercado brasileiro de diesel, gasolina e gás de cozinha", ressaltou o especialista em conversa publicada pela Agência Brasil em 28 de março.

Mudança no tabuleiro geopolítico

A guerra no Oriente Médio não afeta apenas o preço na bomba. Ela muda quem compra quem. Com ataques às fontes produtoras de gás e petróleo, gigantes como China e Índia precisam reposicionar seus suprimentos. O óleo brasileiro tem afinidade química com as grandes refinárias chinesas. O canadense serve melhor para as menores delas.

O giro é interessante: embora sejamos exportadores de cru, precisamos importar o refino pronto. O Brasil joga no meio do campo, mas não tem o chute final necessário. Sem refino, dependemos da boa vontade de outros países para encher nossos tanques.

Troca de paradigma: hidrogênio e realidade

Troca de paradigma: hidrogênio e realidade

Lá no fundo, todo mundo fala em transição energética verde. Mas Gabrielli traz uma dose fria de realismo. "Prescindir do combustível fóssil é a morte", afirma, citando o exemplo de Cuba, que sofreu colapsos ao ficar impossibilitada de receber petróleo.

Ele lança agora o livro "Economia do Hidrogênio", publicado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP). A ideia não é fechar as chaminés amanhã, mas entender que a transição leva tempo. Construir uma nova refinaria demora cinco anos mínimos para começar a rodar. Na crise atual, a única alavanca disponível são os preços.

A ironia é que esse choque pode acelerar a mudança. Com preços altos, o comportamento do consumidor muda. No médio prazo, a pressão pela eficiência energética cresce. Por enquanto, porém, ficamos vigiando o horizonte, torcendo para que o estrecho não feche.

Perguntas Frequentes sobre Crise Energética

Por que o Brasil depende tanto de importação de diesel?

O país possui déficit na capacidade de refino para produzir derivados leves. Entre 1980 e 2014 quase nada foi construído, e recentemente refinarias operam com carga reduzida. Isso obriga a importar até 30% do diesel consumido internamente.

Qual o impacto direto da guerra no Oriente Médio para o brasileiro?

Além do aumento imediato nos preços nos postos de combustível, há o risco de rupturas no fornecimento de gás de cozinha e outros derivados, já que a logística global ficou instável devido aos conflitos regionais.

É possível resolver o déficit de refino rapidamente?

Não. Projetos de engenharia pesada como refinarias exigem cerca de cinco anos para entrar em operação. Soluções imediatas dependem de ajustes de preços e gestão de estoques estratégicos, não de obra nova.

O que diz a opinião técnica sobre abandonar o petróleo agora?

Especialistas como Gabrielli alertam que abandonar o fóssil prematuramente causa colapso econômico, como visto em exemplos caribenhos. A transição deve ser gradual, mantendo produção segura enquanto avança para energias renováveis.

16 Comentários
ailton silva
ailton silva

abril 2, 2026 AT 09:30

A situação descrita mostra claramente que precisamos repensar nossa autonomia estratégica com urgência real.

CAIO Gabriel!!
CAIO Gabriel!!

abril 2, 2026 AT 19:28

Não tem sentido ficar falando em transição enquanto o tanque esta vazio e o pais dependente! parecem esquecer do basico

marilan fonseca
marilan fonseca

abril 4, 2026 AT 05:28

Acho importante refletirmos juntos sobre como podemos apoiar iniciativas locais de eficiência :) talvez existam alternativas viáveis pra gente começar hoje mesmo!

Priscila Sanches
Priscila Sanches

abril 4, 2026 AT 17:48

A análise macroeconômica aponta deficits estruturais crônicos na cadeia logística de refino de hidrocarbonetos pesados. A volatilidade dos mercados de derivas impõe restrições severas à matriz industrial nacional. A necessidade de diversificação é imperativa para mitigação de riscos sistêmicos.

George Ribeiro
George Ribeiro

abril 6, 2026 AT 12:55

nossa historia nos ensina q dependencia custa caro. melhor prevenir q remediar sempre valeu a pena investir na propria terra antes

Joseph Cledio
Joseph Cledio

abril 7, 2026 AT 15:14

O diagnóstico técnico apresentado revela inconsistências operacionais significativas nas últimas décadas de gestão da estatal brasileira. A projeção de demanda supera largamente a capacidade instalada atual das unidades processantes existentes. Seria prudente revisar os planos quinquenais futuros imediatamente.

Ubiratan Soares
Ubiratan Soares

abril 8, 2026 AT 04:38

Esperança é fundamental mas ação é obrigatória. Não adianta só reclamar da bomba ou do dólar subindo agora.

Alberto Azevedo
Alberto Azevedo

abril 8, 2026 AT 11:48

Fico pensando se realmente não há espaço para negociar melhores termos comerciais com parceiros internacionais enquanto construímos nossas capacidades internas.

Norberto Akio Kawakami
Norberto Akio Kawakami

abril 9, 2026 AT 05:45

O tabuleiro energético mudou e a cor da peça brasileira precisa ser diferente do resto do mundo. Estamos jogando xadrez num meio onde outros controlam o movimento das rochas.

Bia Marcelle Carvalho.
Bia Marcelle Carvalho.

abril 11, 2026 AT 04:11

Vamos tentar otimizar nossos gastos em casa também :) economizar energia ajuda toda a sociedade 🌟

Valerie INTWO
Valerie INTWO

abril 11, 2026 AT 10:56

A crise é real!!! E precisa de atenção máxima agora mesmo!!! Não podemos ignorar esses alertas!!!

Sávio Vital
Sávio Vital

abril 12, 2026 AT 16:09

a gente ta sofrendo muito com isso kkkk e nao vai melhorar assim facil :( precisava ter feito isso antes

Elaine Zelker
Elaine Zelker

abril 14, 2026 AT 09:04

É fundamental que entendamos coletivamente o impacto direto dessa vulnerabilidade na estabilidade financeira das famílias brasileiras. A cooperação social será essencial para atravessar este período de incerteza global.

Thaysa Andrade
Thaysa Andrade

abril 14, 2026 AT 23:00

A narrativa oficial ignora fatos cruciais sobre nossa soberania energética histórica. Ninguém fala sobre como o planejamento estratégico foi sabotado sistematicamente ao longo dos anos anteriores. É absurdo pensar que depender de importação seja uma solução viável a longo prazo. A economia local sufoca quando não temos controle sobre os meios de produção básicos necessários. O preço do combustível sobe e desce baseado em interesses externos completamente alheios ao nosso povo. Essa vulnerabilidade expõe a fragilidade de um governo que prioriza aparências acima da segurança real. Precisamos entender que a dependência externa é apenas mais uma forma de colonização moderna sutil. A falta de refinarias não é acidental mas sim fruto de escolhas políticas deliberadas durante governos anteriores. Cada litro importado drena recursos que poderiam circular na própria economia nacional fortalecida. A geopolítica sempre puniu nações que não possuem autonomia industrial completa para sustentar seu crescimento interno. Ignorar essa realidade é perpetuar um ciclo de miséria para milhões de brasileiros comuns que trabalham duro. Devemos exigir responsabilidade de quem permitiu esse vácuo na capacidade produtiva interna necessária. Sem segurança energética, nenhuma outra política econômica terá base sólida para operar corretamente. O risco não é teórico mas sim algo que afetará cada carteira de compras semanalmente aqui. A população merece uma estratégia clara e imediata para reverter esse quadro humilhante perante o mundo todo. Somente com indústria forte poderemos resistir aos choques vindos de fora do continente americano. A história julgará mal a geração que não agiu com força suficiente para garantir o futuro.

Allan Leggetter
Allan Leggetter

abril 15, 2026 AT 10:26

Reflexão profunda sobre o custo oculto dessas decisões estratégicas errôneas tomadas décadas atrás.

Jéssica Fernandes
Jéssica Fernandes

abril 15, 2026 AT 21:36

O cenário tá bem complicado mesmo sem precisar de muita explicação.

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