Uma guerra escalada no Irã, combinada com um possível bloqueio no Estreito de Ormuz, trouxe à tona uma vulnerabilidade antiga e perigosa: a insegurança energética do Brasil. É assim que José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras (2005-2012) descreve o cenário atual em entrevista recente. O economista, hoje professor na Federal University of Bahia (UFBA), não veio apenas para alertar sobre preços, mas para expor o esquecimento estratégico que deixou o país dependente.
Enquanto os mercados globais tremem com esse terceiro grande choque do petróleo — após os históricos de 1973 e 1979 —, o brasileiro precisa entender um fato duro: aqui dentro, a malha industrial está comendo pão sem ter farinha própria suficiente.
A crise silenciosa do refino nacional
O problema não começou agora, claro. A raiz histórica vai longe. Entre 1980 e 2014, o Brasil praticamente parou de construir novas refinarias. Foi só em 2014 que inauguraram a refinaria Peruana... perdão, a refinaria Pernambuco. Durante anos, o plano era erguer cinco unidades modernas. No fim das contas, a Petrobras construiu apenas uma.
Gabrielli aponta um dedo para os tumultos políticos recentes. Segundo ele, a Operação Lava Jato acabou por frear projetos cruciais de expansão. "O Brasil, a partir da Operação Lava Jato, inibiu a possibilidade de criação de novas refinarias", disse ele com clareza. Sem capacidade instalada, o país virou refém dos oscilações externas.
Dependência total de diesel
Aqui está o detalhe que dói no bolso de qualquer logista ou dono de caminhão: o diesel. O combustível representa entre 20 e 30% da demanda nacional por derivados de petróleo. E adivinha? Não temos refino para suprir tudo isso.
A situação piorou durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Nesses períodos, as próprias refinarias da estatal foram reduzidas para operar com metade da carga — apenas 50% de capacidade. Enquanto isso, a porteira abriu para o mercado externo.
Foi nessa época que surgiram cerca de 300 novos importadores autorizados a trazer derivados de combustíveis. Ou seja, se algo travar nas rotas de comércio internacional, essa válvula de escape pode entupir rápido demais. "Não temos capacidade de refino para atender o mercado brasileiro de diesel, gasolina e gás de cozinha", ressaltou o especialista em conversa publicada pela Agência Brasil em 28 de março.
Mudança no tabuleiro geopolítico
A guerra no Oriente Médio não afeta apenas o preço na bomba. Ela muda quem compra quem. Com ataques às fontes produtoras de gás e petróleo, gigantes como China e Índia precisam reposicionar seus suprimentos. O óleo brasileiro tem afinidade química com as grandes refinárias chinesas. O canadense serve melhor para as menores delas.
O giro é interessante: embora sejamos exportadores de cru, precisamos importar o refino pronto. O Brasil joga no meio do campo, mas não tem o chute final necessário. Sem refino, dependemos da boa vontade de outros países para encher nossos tanques.
Troca de paradigma: hidrogênio e realidade
Lá no fundo, todo mundo fala em transição energética verde. Mas Gabrielli traz uma dose fria de realismo. "Prescindir do combustível fóssil é a morte", afirma, citando o exemplo de Cuba, que sofreu colapsos ao ficar impossibilitada de receber petróleo.
Ele lança agora o livro "Economia do Hidrogênio", publicado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP). A ideia não é fechar as chaminés amanhã, mas entender que a transição leva tempo. Construir uma nova refinaria demora cinco anos mínimos para começar a rodar. Na crise atual, a única alavanca disponível são os preços.
A ironia é que esse choque pode acelerar a mudança. Com preços altos, o comportamento do consumidor muda. No médio prazo, a pressão pela eficiência energética cresce. Por enquanto, porém, ficamos vigiando o horizonte, torcendo para que o estrecho não feche.
Perguntas Frequentes sobre Crise Energética
Por que o Brasil depende tanto de importação de diesel?
O país possui déficit na capacidade de refino para produzir derivados leves. Entre 1980 e 2014 quase nada foi construído, e recentemente refinarias operam com carga reduzida. Isso obriga a importar até 30% do diesel consumido internamente.
Qual o impacto direto da guerra no Oriente Médio para o brasileiro?
Além do aumento imediato nos preços nos postos de combustível, há o risco de rupturas no fornecimento de gás de cozinha e outros derivados, já que a logística global ficou instável devido aos conflitos regionais.
É possível resolver o déficit de refino rapidamente?
Não. Projetos de engenharia pesada como refinarias exigem cerca de cinco anos para entrar em operação. Soluções imediatas dependem de ajustes de preços e gestão de estoques estratégicos, não de obra nova.
O que diz a opinião técnica sobre abandonar o petróleo agora?
Especialistas como Gabrielli alertam que abandonar o fóssil prematuramente causa colapso econômico, como visto em exemplos caribenhos. A transição deve ser gradual, mantendo produção segura enquanto avança para energias renováveis.